Duas jornalistas causaram polêmica e indignação no início de janeiro por escreverem textos preconceituosos e carregados de estereótipos dirigidos ao ‘povo pobre’ da cidade do Rio de Janeiro. A jornalista Silvia Pilz, colunista de O Globo, foi uma delas, que causou revolta ao escrever um artigo sobre ‘o plano cobre’. Hildegard Angel foi outra jornalista que mostrou seu preconceito escrevendo sobre a circulação de pobres nas praias da Zona Sul, em que sugere até a não circulação de ônibus da Zona Norte até a Zona Sul, ou até que seja feita a cobrança na entrada das praias.
Em um dos trechos do texto de Silvia, ela mostra como percebe o pobre em uma consulta médica, por exemplo, “Como o hemograma completo exige jejum de 8 ou 12 horas, o pobre, sempre bem arrumado, chega bem cedo no laboratório, pega sua senha, já suando de emoção [uma mistura de medo e prazer, como se estivesse entrando pela primeira vez em um avião] e fica obcecado pelo lanchinho que o laboratório oferece gratuitamente depois da coleta. Deve ser o ambiente. Piso brilhante de porcelanato, ar condicionado, TV ligada na Globo, pessoas uniformizadas. O pobre provavelmente se sente em um cenário de novela”.
Em outro trecho, ela afirma que “Porque a grande preocupação do pobre é procriar”, frase estereotipada, preconceituosa e parecida com a do ex-governador do Rio de Janeiro que em 2007 afirmou em uma entrevista que “favela é fábrica de marginal”. Depois de toda a polêmica que gerou na internet por causa do artigo que publicou, Silvia modificou o texto e argumentou que queria apenas usar o “humor”.
Hildegard Angel foi outra que mostrou também o que pensar sobre os mais pobres da cidade ao afirmar em um artigo intitulado de ‘O caos já se instalou no Rio, o poder público precisa de coragem’. Segundo ela, o problema que precisa ser resolvido é a circulação de pobres que atravessam a cidade para o lazer, que enchem as praias da cidade. Ela sugere que ‘Em tais dias de grande concentração de pessoas nas ruas e praias, nos fins de semana e feriados de verão, diminuir drasticamente a circulação das linhas de ônibus e de Metrô no fluxo Zona Norte – Zona Sul’, além disso ‘Caso a providência não alcance resultado, partir para um plano B radical: cobrar entradas nas praias de Leme, Copacabana, Leblon”. Ou seja, para além de toda a opressão que o povo pobre já sofre diariamente, sendo a ele permitido silenciosamente apenas circular a cidade para trabalhar durante a semana, as duas jornalistas colocam no papel o que pensam sobre esta classe mais pobre, negra e favelada, enxergando esta parte da população como o perigo da cidade, como aqueles que devem ser cada dia mais afastados, jogados para longe, sem direito de circular tais territórios que teoricamente – por causa da condição social – tal sociedade acha que não é de todos e todas.
As duas jornalistas confundem o que é a liberdade de expressão, elas se utilizam do poder da comunicação para tentar influenciar, de acordo com opiniões próprias, toda uma sociedade que já reforça todos os dias tais preconceitos e práticas que podem discriminar os mais pobres da cidade. Além disso é grave a violação do Código de Ética dos jornalistas, que imputa como dever a defesa dos direitos humanos. Urge no sistema brasileiro de comunicação uma regulação que garanta a preservação dos direitos humanos e impeça a reprodução de narrativas carregadas de ódio e preconceito. Infelizmente, elas não são as únicas a conduzirem um jornalismo deste modo, são inúmeros os programas, artigos, matérias que demonstram todos os dias como parte da sociedade pensa e sugere o que o ‘poder público’ e as pessoas façam com esta parcela da população.
#OndeEstáOAmarildo?
Diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro
