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Nota de pesar – JAGUAR

O corpo do cartunista Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, de 93 anos, será velado a partir das 12h desta segunda-feira (25) na capela celestial do Memorial do Carmo, na Zona Portuária. A cremação será às 15h, em cerimônia restrita a familiares e amigos próximos. Jaguar morreu no domingo (24), no Rio. O cartunista estava internado no hospital Copa D’Or, com infecção respiratória, que evolui para complicações.

Jaguar (foto ABI) foi um dos criadores do jornal satírico O Pasquim, em 1969.  O cartunista começou a carreira desenhando na revista Manchete em 1952, aos 20 anos. Nos anos 1960, assumiu o pseudônimo que o acompanharia durante a vida profissional, após sugestão do colega desenhista Borjalo. Com O Pasquim desenvolveu um conteúdo ácido e crítico à ditadura militar vigente no Brasil. O artista foi preso uma vez e enfrentou processos no período. Seu personagem mais conhecido foi o ratinho Sig, que também foi mascote do Pasquim.

O Sindicato presta sua homenagem ao genial cartunista, publicando um capítulo do seu livro “Confesso que Bebi – Memórias de Um Amnésico Alcoólico”. Nele, Jaguar deixa seus últimos desejos:

ENTROU AREIA NAS CINZAS
Já que a minha vida é uma bagunça sem remédio, pelo menos resolvi planejar direito a minha morte. Para começar, decidi ser cremado. Sem choro, nem vela, sem velório nem enterro, coisa medieval, massacrante, um sofrimento insuportável para a família e os amigos, menos, evidentemente, para o defunto, que não está nem aí, para ele tanto faz ser enterrado, explodido ou catapultado para o espaço. Par délicatesse, para poupar os que ficam, escolhi a cremação.

Mas atenção, para ser cremado, não basta querer. É preciso preencher um formulário que se apanha na Santa Casa, detalhando por escrito o destino que deve ser dado às cinzas e depois registrar em cartório, com três testemunhas.

No meu caso, determinei que as cinzas sejam espalhadas pelos bares que bebi. “Vai faltar cinza”, foi o comentário de Chico OPF, encarregado com Albino Pinheiro – que já tirou o corpo da missão – Ferdy Carneiro, Machadão e Célia, minha mulher, de executar meu desejo.

Ruy Espinheira Filho, vate de estro rápido e certeiro, lá de Salvador mandou-se o poema que batizou de “A vontade”:

“Jaguar que também é Sérgio
de Magalhães Jaguaribe
fez registrar em cartório
que, ao concluir a vida
seja seu corpo cremado
e as cinzas distribuídas
pelos bares em que haja
eventualmente bebido.

Fato que assaz preocupa
a nomeada executora
da vontade – Célia, a própria
mulher do cujo, doutora
que de hábito leva tudo
com espírito folgazão
e agora se preocupa
de grave preocupação.

Pois, não sendo seu marido
tão amplo de carnes quão
vasto em deveres etílicos,
seja difícil cumprir-se
essa vontade : que as cinzas
jamais serão suficientes
a tantos bares bebidos,
mesmo se distribuídas
com extrema contenção,
cabendo apenas a cada
não mais do que um quinhão
parco, breve, limitado
à quantidade de um grão”.

Irrelevante preocupação, retruco. Se acharem que é muito bar para pouca cinza basta incinerar um pangaré velho para inteirar.

Evidentemente é trabalho (e porre) para vários dias, páreo duro com a morte de Quincas Berro D’Água, que Jorge Amado descreveu na sua obra-prima. Albino Pinheiro e eu que, juntos, organizamos festas memoráveis, não merecíamos perder essa pândega.

Eis que aparece um idiota lá de Brasília, que resolveu atrapalhar a minha vida, digo, minha morte, inventando uma lei que obriga todo cidadão a doar seus orgãos, a menos que conste expressamente no seu documento de identidade que não deseja fazê-lo. Impossível imaginar algo mais invasivo, prepotente e fascista.

Quando acabar essa crônica, vou encarar uma fila no IFP para tirar nova identidade com a cláusula impeditiva. Mesmo porque coitado do cara que ganhar meu fígado para transplante. Ou meu olho míope. Meus ouvidos moucos. Cérebro amnésico. Coração com disritmia. Países-baixos vasectomizados.

Tudo caindo aos pedaços, com prazo de validade vencido. Mas para mim tem um valor afetivo, afinal, estão comigo desde o começo. Aqui, ó, que vão me lotear. Vou torrar tudo.

Jaguar sendo Jaguar até na morte

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